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sábado

O que vai pelo sangue



6 de maio de 2008


Não há como ir contra o que veio antes de nós, ao que somos hoje, como resultado das somas e construções dos que nós antecederam...

Alícia mostra desde cedo o que vai pelas veias, a gana de ir pelo mundo afora, de tecer trilhas sozinha, de viajar, de ser meio andarilha.

Viaja sozinha e sem medo, apesar dos seus sete anos, idade em que muitos se aferram às saias da mamãe e não largam a casa. Desde o ano passado, em suas férias viaja, para longe, vai de avião e volta sem medos quanto ao se vai ser sozinha ou não. Está agora em Brasília.

Planeja ir ao Canadá, para conhecer a neve, para passear e aprender o inglês, claro que há quem fique com ela por lá, outro andarilho da minha família, meu primo.

Semana passada sentou ao meu lado e me disse sem pompa alguma: mamãe eu vou estudar em outro lugar, sabias? Eu a fitei e lhe disse que não, eu não sabia. E deixei que ela continuara falando, me disse que vai "depois" morar lá em Brasília, por que ela quer aprender a "fazer casas" e que acha as casas de lá muito lindas, logo lá deve aprender melhor...
O pai quase morre ao saber.
Eu não.
Por que sou mais uma andarilha.

O que vai pelo sangue da minha família, não fenece, as crenças foram castradas, foram mimetizadas, foram absorvidas por outra crença, mas a nossa natureza não.

De onde vieram os primeiros nossos? Não faço a mínima ideia.
Sei de onde vieram os mais próximos à mim na linha do tempo, mas eles eram nômades, logo os que eram antes deles... Sabem os Deuses de onde vieram...

Posso me dizer cigana? Não, não literalmente, por que mesmo eu sabendo que minha família paterna possui essas raízes, eu por respeito, não farei isso, nunca. Pois não chegou até todo o cerne dessa cultura.

Qual respeito? Respeito à tradição que se perdeu, mas que certamente foi muito importante para os que vieram antes de mim.
O que chegou à mim: a alma cigana, andarilha que mora em minhas veias e nas dos que de mim surgiram, como ela, como Alícia.

Então eu não sofro, não sofro por que sei que ela quer ir embora "depois", nem por que é feliz partindo, mesmo por curto período.

Não sofro por que sou como ela, percorri algumas terras até chegar ao Brasil, e mora em mim aquela coisa, que sempre me sacode e diz "parte, vai"...

Sei que essa gana de ir, essa sede por outros rumos e lugares, pode ser jamais entendida por quem me cerca, e que pode se mal direcionada ser perniciosa, pois vi isso ocorrer, vi membros da minha família até hoje não "estacionar", vivendo num continuo ir e ir.

Mas eu não cortarei jamais os desejos da minhas crias em ir, voltar e ir. Ensinarei o lado bom e o não tão bom disso, estarei sempre "à mão" para acolher. Mas não vou impedi-los de ser.

Tenho além dessa alma andarilha, a herança dos contos e estórias, que minha avó paterna contava.

Tenho como herança a habilidade ou dom de ler as cartas ciganas,o Tarot, e amor mesmo por essa labor. 
Vejo feliz Alícia ir nessa trilha também.

Hoje estou sozinha aqui na Ilha, não há parentes meus aqui, pois eles estão espalhados por aí afora, uns ainda no Equador, na Colômbia, outros pelo Brasil afora, outros no Canadá, outros indo e vindo e indo...

Dizer que não me sinto só, seria hipócrita, mas somos assim, eu após parir, tive que criar raiz, em respeito ao meu parceiro, por que ele é bem terra, bem raiz.

Amanhã? Pode ser que ainda estejamos aqui, ou que tenhamos partido.
Mas o que vai pelo sangue, isso continuará com os filhos dos meus filhos e seus filhos...

Luciana Onofre

 

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